Em minha jornada por S.T.A.L.K.E.R.: Call of Pripyat descobri que o mais mortífero inimigo não são os bandidos, os Bloodsuckers, os Controllers ou os zumbis.
É a Zona. Ela quer me matar.
No jogo existe um evento chamado de Emissão. Sem entrar em detalhes técnicos ou revelar detalhes demais do universo da série, basta dizer que de tempos em tempos ocorre um despejo monstruoso de energia letal na atmosfera e quem estiver fora de um abrigo quando isso acontece vai jantar no Inferno de noite. Em um vasto mundo aberto como é a Zona representada no jogo, isso significa que chegou a hora de correr desesperadamente em direção ao ponto seguro mais próximo, voltar a um ponto de salvamento anterior ou ter a sorte de ter uma pílula especial no inventário.
Não há um horário determinado para as Emissões acontecerem. Felizmente, elas são anunciadas pelo rádio com um mínimo de antecedência. O que geralmente só prolonga o sentimento de fatalidade. Nem todo prédio oferece proteção. É preciso correr para um lugar marcado no mapa, que na maioria das vezes fica bem longe de onde você está.
Não tem porta, mas protege da Emissão. O sujeito é bandido, mas te respeita.
Foi aí que percebi que Call of Pripyat quer ver meu cadáver.
Em um destas ocasiões, consegui correr para um abrigo. Apenas para ver a porta fechar na minha cara, trancada por outros habitantes da Zona que já estavam se protegendo. Morri na porta, xingando os NPCs, os desenvolvedores e todo o povo da Ucrânia.
Em outro momento, estava no meio de uma missão. Uma das mais assustadoras do jogo. Que envolve encher de gás letal um covil de monstros. É claro que algumas das criaturas escaparam e tentaram me destruir. No meio do embate tenso, veio o aviso: Emissão a caminho. O abrigo mais próximo? O mesmo covil que eu havia acabado de contaminar. Sem tempo para pensar nas consequências, pulei no elevador quebrado e mergulhei no abismo de corpos e ar mortífero. A Emissão não me matou, mas o gás quase conseguiu.
Atribui esse caso ao azar. Até tentar atravessar um campo minado em outra missão. Novamente, uma tensão tão densa que poderia ser cortada com uma faca. Um passo, testa o solo, outro passo, desvia, testa, avança, desvia. No exato meio do campo do minado, veio o aviso: Emissão à caminho. O abrigo mais próximo? Longe, muito longe. Tomado pelo pânico, tentei voltar correndo. Pisei em uma mina. Morri.
Na missão mais recente, balas cortando para todo o lado em uma invasão noturna a uma base de bandidos. No meio do tiroteio, o aviso: Emissão a caminho. Quais são as chances de isso acontecer três vezes comigo? O abrigo mais próximo era muito longe da missão, que ficaria incompleta ou poderia terminar com a morte da pessoa que eu iria salvar. "Dane-se a Zona", pensei. Eu tinha a pílula certa. Corri para o centro da base, para tentar eliminar o máximo de bandidos no curto tempo que tinha e talvez resgatar o refém. Caí em uma área com mais inimigos do que poderia dar conta. Estava protegido dos tiros, mas encurralado. A Emissão veio. Tomei a pílula. E apaguei. Quando levantei, só cadáveres ao meu redor. E o refém, que é um NPC imune a este tipo de evento, para não quebrar a missão. Mas nunca consegui resgatá-lo. Ele está esperando que eu mate todos os bandidos, o que nunca mais vai acontecer porque eles já estão mortos.
Pesquisando sobre as Emissões e sobre as missões, descobri que as primeiras são totalmente aleatórias (ainda que espaçadas) e as segundas não tem nenhuma Emissão pré-programada para acontecer. Foi puro azar.
Só que não foi.
É a Zona. Ela quer me matar.